O Natal no Vale de Santarém, em tempos de infância

Memórias do estado do tempo. Do frio. Por vezes chuva, por vezes nevoeiro, por vezes sol aberto, intenso. Mas frio, quase sempre. Memórias da chaminé alta. Do lume aceso, das labaredas a lamberem a lenha, e a lenha a estalar e a ficar arreganhada, as faúlhas a subirem, vertiginosamente, a desaparecerem pelo negrume da chaminé acima, umas atrás das outras, sem parar, e nós quentinhos, a saborearmos tudo. A saborearmos aquele momento e o que havia de vir, quando nossa mãe tinha tudo preparado para começar a deitar a massa na frigideira grande e depois os velhoses, a seguir os coscorões, a ganharem forma, distendendo-se, encorpando, a cor a chegar ao doirado do costume, apetitosos só de os ver assim, a crescer, e minha mãe a dar-lhes uns toquezinhos com o garfo grande, como que a incentivá-los a crescerem mais.

Memórias fortes. Das cores da natureza. As folhas das cepas mescladas de amarelo e roxo intenso. As macieiras despidas de folhas, só os troncos à mostra, e lá, abandonado, o ninho dos pintassilgos; as figueiras nuas, com ar triste, e as oliveiras de verde-negro, já podadas pelo meu pai. Gotas de água, serenas, pequeninas, depositadas nas folhas das silvas, nos valados, ou nas ervas, pela manhã; há uma brisa suave que agita as gotas, e elas parecem espelhos redondos – aproximo-me mais e fico reflectido nelas; ou então caiu geada, um manto branco sobre a erva, nós a pisar a geada, de propósito, e ela a estalar. Ou então nevoeiro, e o nosso bafo a confundir-se, a dispersar-se nele. Ou então chuva, dias seguidos, e minha mãe a pôr os alguidares a aparar água do beiral do telhado; continua a cair pela noite fora, e nós a ouvi-la, tocada a vento forte, que uiva na empena da nossa casa, até que o sono toma conta de mim. Memórias dos perfumes dentro de casa, desde a véspera de Natal, mas também na rua, logo à saída da porta. Perfumes das laranjas descascadas, do sangue dos coelhos esfolados, das galinhas na água quente, à espera de serem depenadas, e da abóbora, da raspa de limão, da massa para os fritos, a levedar. Da aguardente, que era preciso usar. Da canela, que vinha da loja, para os fritos, e do açúcar amarelo, cheiro intenso… A noite em que íamos para a cama tarde, inundados de perfumes de Natal, que se colavam às nossas roupas e, nessa noite, connosco dormiam, os perfumes…

Natal da minha infância. A terra não muito ligada à religiosidade, porém iam muitos à “missa do galo”, alguns só nessa noite. Um ritual. Era o caso do ti Manel d’Abrã, nosso tio avô, mais conhecido pela alcunha de “deusnossenhor”, marido da ti Mari da Velha, ele experiente pescador de enguias ao remolhão, ela a compreensivelmente rezingona amanhadora de enguias, que terá tirado as tripas a centenas de quilos delas. O “deusnossenhor”, porque se distinguia pelas suas barbas brancas, escolhia sempre o mesmo lugar, na igreja, para assistir à missa do galo. Antes de entrar, tirava o barrete preto, era a altura do ano em que o via com a cabeça descoberta, já um pouco puída no cocuruto. Entrava com muita cerimónia, respeitosamente e, devagar, encaminhava-se para a escada à direita, por onde subia para o sítio do coro. Era aí que assistia a tudo, imitando o que via fazer. Não rezava, que não sabia, mas aquele era o dia do seu encontro espiritual anual, ou assim parecia. Precisava daquilo. Era como uma promessa. Terminada a missa, vinha mais leve no andar, pelo menos, pois descia depressa até ao largo da Fonte das Três Bicas, onde o esperavam uns cálices de aguardente. Depois, rumava a casa, subindo pelo carreiro, até ao cabeço da Fonte Boa. Ia mais quente.

Mas, antes disso… antes do Dia de Natal, as mulheres – avós, mães, filhas… – numa azáfama, para no dia 25 poderem apresentar os velhoses e coscorões, confeccionados na tarde do dia 24 e, por vezes, já na madrugada de 25. Era preciso ter todos os produtos e ingredientes para a função, assim como os utensílios para a confecção, sem esquecer a lenha, ou o carvão. Até o fogareiro a petróleo poderia ser chamado para a liça. Aos homens – avós, maridos, filhos… – pouco cabia fazer em casa com vista ao Natal. Obter a lenha. Ir às laranjeiras e tirar das melhores laranjas. Ter a aguardente preparada. Talvez ir à talha do azeite… E mais… a memória não guarda, de tão pouco que lhes cabia fazer, ou que se dispunham a fazer.

Entretanto, os jovens iam ornamentar as fontes da aldeia: a Fonte das Três Bicas e a Fonte de Uma Bica. Era preciso obter folhas de palmeira e ramadas de pinheiro e cordões de hera, para fazer os arcos, nos quais se penduravam ramos de laranjeira, que era norma terem ainda algumas laranjas. Os enfeites eram mantidos até ao Dia de Reis, 6 de Janeiro. Orgulhosos, os jovens admiravam a obra, um ritual de iniciação para os mais novos.

Durante a noite de Natal, em dois ou três locais da aldeia, havia o tronco a arder. Mas não se dizia assim. Dizia-se “a fogueira da noite de Natal” ou “o cepo de Natal”. Fogueira com quê? Um grande tronco de oliveira ou sobreiro, a maior parte das vezes, mas também troncos de outras árvores: pinheiro ou figueira estavam igualmente entre as mais utilizadas.

Os cepos. Podiam ser oferecidos por alguém, que havia feito uma limpeza, ou um derrube de árvores, nas suas propriedades, e as dava de boa vontade. Mas, se assim não fosse, os jovens partiam para uma acção audaciosa, que era sempre mais apetecida. Tratava-se de roubar cepos de alguma propriedade, cujo dono, ou merecia há muito a sanção – por ser mal visto na aldeia – ou havia negado a oferta dos cepos. Para estas surtidas, os jovens organizavam batidas nocturnas, dias antes do Natal, para identificarem as árvores-alvo, a pedir ou a roubar.

Então, ao fim da tarde ou ao cair da noite, ou mesmo noite dentro, os grupos de jovens, organizados por zonas da aldeia, partiam para a acção de recolher os troncos oferecidos, ou para o assalto aos que era preciso roubar. Os grupos competiam entre si e, dado que nunca se sabia o que podia acontecer, não se abriam com ninguém sobre onde iriam obter o cepo naquele ano. Era uma combinação dentro de cada grupo, onde um líder comandava e, até, castigava quem não se comportasse dentro das regras. Uma das sanções – das piores sanções – era negar o acesso ao grupo a alguém que tivesse dado mostras, por palavras ou acções, de que não seria capaz de guardar segredo. Então, ficava impedido de pertencer ao grupo no roubo dos cepos.

Obtido o cepo, os jovens traziam-no, sob o comando do líder, para o local onde iria arder. A organização e distribuição de forças, por parte do líder, era deveras importante, porque os cepos podiam ser bastante volumosos e, por isso, serem muito pesados. Os mais velhos, recordando os tempos em que haviam feito o mesmo, juntavam-se, no local, aos jovens, partilhando com eles o regozijo de se continuar a tradição.

Normalmente eram três os largos onde se queimavam os cepos: dois junto às fontes da aldeia, e ainda outro num largo, na rua da estação de caminho-de-ferro da Linha do Norte. Era o largo conhecido como do Manel Jaquim, que tinha ali uma taberna.

As árvores eram ateadas, com palha ou caruma seca. Inicialmente, levavam algum tempo a pegar fogo, por estarem húmidas. Por vezes, era necessário recorrer ao petróleo, para as pôr a arder de modo contínuo. Em cada local podia haver mais do que um tronco a arder. As labaredas subiam bem alto. Quanto mais alto subiam mais os grupos rejubilavam. Os rapazes, os jovens, os adultos, e os mais os velhos, mantinham-se por ali, em volta do fogo, até aguentarem. Era preciso ir virando os cepos, para os manter a arder.

Passavam pessoas a caminho da “missa do galo”, e, quando regressavam, muitos ainda continuavam em volta das fogueiras. Os grupos aumentavam de número quando alguns homens, regressados da missa, decidiam ficar por ali também. Noite fora, no brasido, assavam-se chouriços, farinheiros e outras carnes. Os padeiros traziam algum pão fresco, ou era obtido no dia anterior. O vinho novo, a água-pé e a aguardente passavam de mão-em-mão, em garrafas ou garrafões. Aos grupos, junto aos cepos, a partir da meia-noite, geralmente, começavam a chegar pratos com velhoses e coscorões, que as mulheres faziam questão de lá ir levar. Deixavam os pratos com os fritos, mas voltavam para casa. A noite era passada em conversas sem fim, entre homens, com anedotas e brincadeiras com os mais novos, até que alguns adormeciam.

Os grupos mantinham-se, madrugada dentro, junto aos cepos. Ao alvorecer do Dia de Natal, ou até mais tarde, os homens iam abandonando os cepos, que continuavam a arder. Todos os dias, durante a tarde e parte da noite, os homens, sobretudo os mais jovens, confraternizavam junto aos cepos, até ao dia de Reis, fazendo por mantê-los a arder. Para isso, por vezes era preciso ir buscar troncos mais pequenos.

No dia de Natal, pela manhã, a mulher da casa mostrava e distribuía à família uma primeira parte do seu longo e carinhoso trabalho – os velhoses e coscorões, que acompanhavam o pequeno-almoço. Nesse tempo, a designação “pequeno-almoço” ainda não tinha ganho lugar no nosso vocabulário. Dizia-se, “velhoses e coscorões ao café”.

Ainda pela manhã, no dia de Natal, as mulheres da casa iam levar às vizinhas e familiares pratos com fritos dos seus, recebendo lá oferta igual. Era “de bom tom” apreciar sempre, de modo positivo, a oferta, mesmo que, logo à vista, os fritos recebidos parecessem piores do que os oferecidos.

No Dia de Natal não havia comidas típicas na aldeia. Mas quem tivesse coelhos, ou galinhas, ou galos, costumava cozinhá-los nesse dia. O coelho era guisado, e as aves iam ao forno ou eram cozidas com arroz. Porém, os velhoses e coscorões estavam presentes o dia todo e, se possível, continuavam por mais alguns dias a dar prazer a todos lá em casa, sobretudo ao café da manhã.

O pinheiro de Natal, além de já estar nas montras de algumas lojas, ia aparecendo pelas casas, aos poucos. Ia-se aos pinhais em redor e cortavam-se as árvores mais pequenas e redondas. O pinheiro era colocado em casa, na cozinha, ou então na sala, a que se chamava “casa de fora”, onde se recebiam as pessoas que eram tidas como mais importantes, ou que vinham de fora, enquanto as pessoas da aldeia, mesmo os familiares, era costume entrarem pela porta da cozinha. O pinheiro de Natal era colocado num alguidar grande, ou num balde de zinco, com terra e pedras em volta, para o manter direito. Em redor do caule, colocavam-se pequenas porções de terra com musgo, de tal modo que o pinheirinho ficava como saindo de um tufo verde. Havendo as figuras do presépio, poderiam ficar exactamente sobre esse tufo verde. A cobrir o recipiente, podia colocar-se papel de estanho, obtido dos maços de tabaco, ou então ramos de pinheiro, ou hera. Por fim, talvez algumas pequenas pinhas penduradas nos troncos, e, fingindo de neve, farrapos de algodão, sobre o pinheirinho de Natal.

Nesse tempo, não se viam presépios de Natal, na nossa terra e, em Santarém, nas montras dos estabelecimentos, ainda eram raros.

Assim era, no tempo do Natal da minha infância. No Vale de Santarém. 

Manuel João Sá.

pinha

Autor: 60emais

Português.

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