A MINHA PRIMEIRA ÁRVORE DE NATAL

COISAS DA VIDA – MEMÓRIA 1

Pela manhã, o avô Alfredo chegou a casa com um pinheiro pequenino. Trouxera-o das terras que ficavam ao lado da vinha. Depois, aparou-o meticulosamente. Como fazia com tudo em que metia as mãos e aquele profundo olhar, cheio de saber e de silêncio. Tirou-lhe alguns ramos, para entrar no cesto de zinco da vindima. Ali ficou, em terra molhada. O avô explicou: “Põe-se água, para não secar”.

A avó Alexandrina acercou-se, franziu a testa, no jeito de perguntar, e disse: “Não lhe põem musgo?”. Houve um tudo-nada de silêncio. O dia estava bastante frio. As nuvens, um manto cinzento-azulado, escondiam bem o sol. Das hortas vinham fumos de pequenas fogueiras, dispersas. Fumos que subiam, devagarinho, até se unirem. Como véus, voando por cima das árvores. Uma pintura em movimento. O verde das encostas, quase um negrume. Confundia-se, ao longe, com o azul-cinzento-escuro do céu.

O avô Alfredo não respondeu logo. Passou ao de leve, uma e outra vez, os dedos pelo bigode, deixando-o mais composto. Depois, foi dizendo: “Já está tudo tratado”. Sorriu, coisa rara. Deu uma ligeira piscadela, e indicou-me, com um trejeito, onde iríamos buscar o musgo. Era uma zona em frente ao que fazia de jardim-ao-pé-da-porta. Lá estavam as lombas do mais verde e luzidio musgo que podia haver.

Aprendi então tudo sobre como fazer a árvore de Natal. O pinheirinho ficou à entrada do quarto que havia sido de meu pai e de meu tio. Era onde eu dormia, sempre que estava lá em casa. O pinheiro parecia nascido ali mesmo, no cesto da vindima. Junto ao tronco, o musgo. Como se fosse uma obra da natureza. Disse o avô: “Encostam-se uns aos outros os pedacinhos de musgo… por vezes tiramos da terra bocadinhos que são mais claros… é preciso voltar a pôr bem juntos os pedaços da mesma cor… para que não fique uma manta de retalhos”.

Foi assim que fiquei a perceber o trabalho da vizinha das traseiras. “Faz mantas de retalhos para umas senhoras de Lisboa”, disse uma vez a avó. “Não sei para que querem aquilo, gente de tantas posses… vêm uma mão cheia de vezes buscar as mantas aqui, à Carlota, vê tu bem”. E fez o sinal da mão cheia. Os olhos verde-azulados, com pintinhas de castanho a sobressair. “Para quê, para que querem uns trapos cozidos… vá lá uma pessoa perceber uma coisa assim…”. Ficou depois silenciosa. De um lado para o outro, na lida da casa. Ainda airosa. Ainda mulher.

“Então e o almoço” perguntou o avô. Eu, mirando e remirando o pinheiro, queria ficar ali ao pé dele. Forte cheiro a resina e a musgo. Na semi-penumbra do quarto, o algodão, esticado em pequenas farripas, sobre o pinheiro. Parecia caído do céu. Era mesmo como a neve. Eu nunca vira nevar. Mas no livro das minhas irmãs havia uma figura. Era tal e qual. Assim me parecia.

O avô fizera aquilo muito bem. Pacientemente. Com as suas mãos de saber endireitar a terra. De pôr as cordas, deixando-as esticadas para alinhar. De traçar os desenhos geométricos nos canteiros da horta. Fazia nascer na horta um harmonioso rendilhado de almofadas, curvas, cantos, baixas e requebros. Parecia um jardim. De vez em quando, parava um pouco para olhar em redor. Os pés, cobertos de terra, como que enraizados no solo. O corpo levantado. A mão direita no cabo da enxada, num momento de descanso. E de silêncio.

Era então altura de o avô enrolar um cigarro. As mãos, com todo o vagar, a estender na mortalha a porção de tabaco. Depois, olhava de través o horizonte, como se medisse o destino. E ficava a fumar, lenta, lentamente. Um intenso perfume percorria o espaço. O avô, muito longe dali. Tão calado, tão quieto. Nuvens de fumo a pairar em volta. Quietas. Ele, recortado contra o azul-ciclame do fim de tarde. No lento entardecer da sua própria vida.

“A pinha não se tira”. E pensava eu que a árvore de Natal não devia ter pinha. Mas o avô disse: “Até lhe dá uma certa graça” e eu disse “Pois é, avô”. A pinha, pequenina, tinha secado e lá ficara. Fui mesmo espreitá-la, por entre as farripas de algodão-a-fazer-de-neve, para ter a certeza de que não caíra. Foi então que o avô me chamou: “Anda, vem comer… se não, arrefece”.

O espaço, os sons, as imagens, os odores. Como se fosse tudo agora mesmo. A avó sorridente e faladora. O avô sereno, quase sempre calado. Alisa o bigode, uma e outra vez. Olha-me, como quem sonda o futuro. Na mesa, a sopa de feijão, a fumegar. Na parede, à esquerda, a grade da loiça. Alinhadas, as saladeiras. Também os tachos, as panelas. Em lugar de destaque, duas travessas. Com desenhos em azul e ocre. À minha frente, o poial das bilhas de barro, para a água. Mais à esquerda, a lareira alta. Por debaixo, a lenha, o carvão, algumas alfaias, outros utensílios. Uma cortina de correr, a tapar tudo. E eu, a meter-me lá. Para imitar as cenas dos saltimbancos que vinham à aldeia.

“Esta noite é bom pôr um sapato na chaminé”, disse a avó. “O Menino Jesus vai deixar prendas nos sapatos dos meninos que se lembrarem dele”. Abri muito os olhos. Fiquei espantado. “É verdade avô?”. “Sim”, disse ele, sem olhar para mim. Mas pareceu-me vê-lo sorrir um pouco…

Achei aquilo extraordinário. Era a primeira vez que tal coisa ouvia. “Mas não tenho sapatos… tenho botas”. Saí da mesa e fui mostrar à avó. As botas com sola de borracha tinham vindo da Feira dos Santos, no Cartaxo. A avó deu uma gargalhada e disse: “O Menino Jesus não se importa… sapatos ou botas, tanto faz”. Fiquei descansado. Pus-me a olhar as botas. Qual delas devia pôr na chaminé? Fui até ao quarto. Escolhi a do pé direito. “Avó, já sei… esta é que vai para a chaminé”, apontei. “E até já estive a limpá-la”.

Foi em grande desassossego que passei o resto do dia. Por isso, a noite pareceu chegar logo logo. Quase não tive tempo para comer, antes que adormecesse. Minha avó levou-me a deitar. Soube depois que foi o avô que pôs a bota na chaminé.

Logo pela manhã, fui espreitar a bota. Pé-ante-pé. Na cozinha, não havia ninguém. Pelo menos, à vista. Também não via qualquer sinal de presente. Dei dois ou três passos. Sem ruído. Era como se quisesse ser muito leve. Então, ao lado da bota, foi aparecendo um bonito avião. Um bimotor. Todinho em folha-de-Flandres. Janelas pintadas a azul. Asas e hélices em cinzento. Sob o efeito do lume, a fuselagem resplandecia. Ao lado, o leite quase a ferver.

Eu, com o avião nas mãos. A admirá-lo. Um sorriso de criança. O cheiro a canela e açucar dos velhozes. A mistura com o aroma da lenha a arder. A avó, como que deslizando, a acolher meu corpo e meus olhos de espanto. Eu a aconchegar-me nas suas saias. Enormes.

Fica a memória. Para sempre.

Manuel

Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “A MINHA PRIMEIRA ÁRVORE DE NATAL”

  1. Gostei de ter lido estas suas memórias, fizeram-me lembrar de quando eu fui menina, tantas referências desse tempo aqui encontrei! A minha árvore de natal, era eu mesma que a fazia, se a queria. Pegava no serrote do meu pai e lá ia ao pinhal que ficava para lá das traseiras da minha casa, escolhia um pequeno pinheiro que fosse o mais simétrico possível, menos desengonçado, que era isso mesmo que todos eles eram. Em casa enfeitava-o com bugalhos envoltos em prata do maços de cigarros e também em pratas de outras cores, que não me lembro onde as conseguia desencantar. Algodão também usava com fartura, afinal, era barato, por isso nunca lá faltou em casa. O que me faltou, isso sim,foram os chocolates para na árvore pendurar. É certo que, pouco tempo durariam pendendo na minha humilde e pobre árvore de natal, mas os instantes em que lá permanecessem teriam sido suficientes para dela, da árvore, guardar uma grata e doce imagem, porque há recordações que valem ouro.
    Um Feliz Natal para si e para os seus.
    Milu

  2. Milu

    Muito obrigado por ter dado o seu contributo. Através da sua visita e da experiência que relata, fico assim a conhecer mais um pouco, muito valioso, sobre o que foi o fazer da Árvore de Natal, com alguns/outros meios para enfeite, noutro lugar. E com que pormenor e simplicidade a Milu o fazia!.. Porém, estou certo, fazia-o com a riqueza do grande sentimento do Natal e da mensagem que a quadra encerra.

    Desejo-lhe Feliz Natal, e tudo de bom para si e seus familiares

    Manuel

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.