CRÓNICA SOBRE OS VELHOS PARA OS NÃO-VELHOS AINDA – CRÓNICA 5 E ÚLTIMA

CRÓNICA DA UTOPIA

Assim, por todas as razões já faladas, “os velhos, cheios de cuspo e conselhos”, como escreveu o poeta O’Neill, que são cada vez mais e cada vez mais velhos, ameaçam tomar conta disto, quer dizer, do mundo.

Ainda mais porque os não-velhos – muitos deles até pensam que irão manter-se sempre não-velhos – não fazem filhos, porque não têm vontade, ou energia ou naturalmente – termo que a minha mãe, também ela velha, usaria aqui para dizer “se calhar” – por qualquer outra razão importante.

E então, um dia os velhos serão, em toda a parte, a grande maioria. Poucas crianças e outros não-velhos haverá. O governo do mundo será assumido pelos velhos e pelos muito velhos, que assim mais não farão que governarem-se a si mesmos, com as doutrinas, as políticas, os planos, os orçamentos, os meios e as energias que melhor entenderem e que melhor sirvam a sua condição de velhos e muito velhos.

É a sabedoria a subir ao poder. Isto porque os velhos e muito velhos são a reserva última da sabedoria dos povos e, portanto, quem tem a sabedoria é que deve exercer o poder. Então, os velhos e muito velhos que exerçam o poder.

Os velhos e muito velhos não terão nem disposição nem paciência para entrarem em competições, em guerras, em invasões de fronteiras ou conquistas de terra, mar, ar, espaço ou quaisquer outras.

Os velhos e muito velhos não quererão sequer saber de investimentos ou de crises financeiras, e vingar-se-ão a comer o que a terra e o mar lhes derem. E comerão até que nada mais reste. Talvez que os cães, os gatos, as hienas e outros animais selvagens e não-selvagens queiram depois tomar conta disto (se é que também eles não irão desaparecer) porque já não haverá mais crianças, jovens, adultos, de meia-idade. E o último velho muito velho (velho e relho) a ir-se, vai partir a rir-se de tudo e de todos.

E pronto, acabou-se. Os velhos já não incomodarão mais ninguém!…

(Fim das Crónicas sobre os velhos para os não-velhos ainda)

Manuel

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “CRÓNICA SOBRE OS VELHOS PARA OS NÃO-VELHOS AINDA – CRÓNICA 5 E ÚLTIMA”

  1. Há velhos e velhos.
    Na minha juventude tive o privilégio de ter no meu círculo de amigos pessoas bem acima dos cinquenta anos, com quem adorava conversar por serem um poço de conhecimento. O quanto me deliciava sempre que podia constatar que conheciam, ou já tinham lido os meus livros que eu, permitindo-nos deste modo termos uma conversa e troca de impressões fluída e animada. Eu admirava-os pelos seus portentosos conhecimentos e eles achavam-me graça por ser tão jovem e interessada, não me ocorria que eram velhos, porque os não conseguia ver assim! Talvez por isso nunca por essa altura me apercebi da tristeza que é ser velho.
    Actualmente e para meu desgosto não é bem esse género de pessoas com as quais tenho de lidar diariamente. Se não veja: Ainda ontem uma colega me transmitiu a sua angústia por já ter ultrapassado a faixa etária dos vinte anos, confessando que nem teve vontade de comemorar os trinta anos. Ora eu, que tenho 48 anos, portanto, bastante mais velha do que essa colega, levei aquele desabafo como uma ofensa, até porque já não é a primeira vez que me abordou com semelhante conversa, dizendo-me com um suspiro que estava cota, porque já tinha trinta anos. Quanto a mim, esta conversa não tem nada de inocente! O que me está a querer dizer é que eu sou velha, mesmo não aparentando ou tendo a postura de velha, está interessada em que não me esqueça de tal! Como não gosto de trazer para casa atirei-lhe de imediato que mais importante do que ser jovem é aquilo que fazemos da nossa juventude, querendo com isto dizer, que não é a casar aos vinte anos, com essa idade empenhar-se até ao tutano na compra de uma casa e a criar filhos, que se goza a juventude, sendo que esta é a situação dela. Mas o que mais me impressiona é o facto de projectarem em todas as pessoas mais velhas a imagem ou o exemplo que têm dos próprios pais, pessoas limitadas intelectualmente, por não terem cultivado ao longo das suas vidas o interesse pelos estudos ou, ao quanto mais não fosse, pela leitura. Sempre que posso dou-lhes a entender que é injusto esse julgamento e, para que isso possam constatar, cito alguns exemplos e um deles é o Mário Soares, um homem extremamente lúcido, culto e detentor de uma conversa perfeitamente coerente e com visão de futuro, apesar da idade avançada. Se comparado com muitos jovens e até licenciados, estes coitadinhos, pareceriam atrasados mentais. Contudo, penso que não me percebem, para estas pessoas os velhos são todos como os pais e os pais dos amigos, enfim, não conseguem ver para além daquele mundinho pequenino que é tudo o que conhecem. Orgulho-me de na minha juventude nunca ter tido esta posição, aliás, nunca me ocorreu pensar que os velhos são todos tontos e chonés, pois se, os que conhecia não o eram!

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