CRÓNICAS SOBRE OS VELHOS PARA OS NÃO-VELHOS AINDA – CRÓNICA 2

É claro que há os velhos que até já têm conta bancária. Mas, como muitos não sabem ou não conseguem ler, ou já não podem ir ao banco, ou não sabem como funcionam essas coisas, então têm o dinheirito sob o superior e bem organizado controlo do filho ou da filha, ou até da neta, ou de nem sabem bem de quem, pouco importa: têm cama (têm?), têm mesa (têm?) e roupa lavada (têm?)… Não chega? Já se podem dar por muito felizes, não é?!…

Mas os velhos têm ainda a mania, vejam bem, de quererem mandar nas suas vidas e no que é seu. Por vezes até querem continuar a dar conselhos e até ordens (que disparate!…) aos seus filhos, genros, noras, netos, bisnetos, cães, gatos, periquitos e tudo o que mexe em seu redor.

É vê-los a fazerem birras, a amuarem, a baterem o pé (será que, como as árvores, os velhos também gostariam de morrer de pé?) e a gritarem para manterem essa ideia obstinada de mandarem na sua própria vida.

Outras vezes dá-lhes para ficarem em silêncio. Retêm-se a um canto ou fazem gazeta à sopa, ao chá, às  bolachinhas, só para uma chantagenzinha psicológica, que já sabem que de vez em quando funciona, os matreiros…

É que eles, os velhos, ainda pensam que têm identidade, autoridade, saber e autonomia. Não percebem que o tempo deles passou, que já não têm idade, ou então já têm idade mais que suficiente para terem juízo e desistirem dessas manias… já não têm quereres. Além disso, já estão trôpegos, surdos, vêem mal, não percebem nada do que se diz ou do que se passa à sua volta. Tal como as crianças, fazem perguntas inoportunas e dizem coisas a despropósito, nos momentos e lugares mais a despropósito. É por isso que ouvem dizer: “oh pai, cale-se que não sabe o que está a dizer…”.

Depois, só se queixam do reumático, da vesícula, das hemorróidas, das varizes, da tensão, do colesterol, da diabetes, dos inchaços dos pés, das mãos, dos joanetes, da coluna, do fígado, dos rins, da vista… só coisas complicadas e tristes, quando o que é bom é estarmos alegres, felizes, que para tristezas já bastam coisas como o trabalho, que chatice… tristeza é não fazer sempre sol e calor, para podermos ir à praia todo o ano. Para tristeza já basta esta crise, que por aí anda, que já era de cá de dentro mas também veio de fora, para nos dar cabo dos empregos, das prestações, das acções e de não se sabe mais o quê, por agora…

“E é que não é só isso…”: deixam cair os óculos, a bengala, a sopa, as canadianas, a baba, a chávena, o pingo do nariz no chá, o açúcar em cima da mesa. E até se deixam cair eles próprios na sala, ou tropeçam nas alcatifas, no degrau da escada. Atiram-se com todo o peso para cima do sofá (… “ainda ontem fomos buscá-lo ao ikea, vê tu bem?!…”) e nele se afundam a ver a televisão, ele é a novela, ele é o jorge, ele é a júlia, o gouxa, a fátima, o mendes, e o josé mais o rodrigo dos telejornais e a outra da tvi, e as historietas que eles todos contam, mais as historietas dos velhos que vão aos programas, dos velhos que ainda têm dentes e dos que já não têm, dos que fazem ioga (“iôga, é assim que se diz”, alguém corrige) taichi e não sei mais o quê, como renda de bilros, criação de canários, exercícios com bola e sem bola, até têm fatos de ginástica e sapatilhas de marca e sem marca (ou do chinês) a condizer. E vão aos bailes, arranjam namoricos e querem voltar a casar.

Os velhos estão cada vez mais saídos, quem havia de dizer?!… Até vão às discotecas, porque “até que enfim”, dizem, “no nosso tempo é que devíamos ter tudo isto…”. Pois claro, também têm direito a ir às discotecas, pelo menos uma vez na vida. É o que dizem os senhores das juntas de freguesia, e ainda bem, que essas coisas todas são o progresso e eles, os velhos, também querem é estar actualizados… oh se querem, quem sabe disso muito bem são os presidentes das juntas de freguesia, pois…

Continua

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “CRÓNICAS SOBRE OS VELHOS PARA OS NÃO-VELHOS AINDA – CRÓNICA 2”

  1. Como o meu caro amigo sabe lido desde há 17 anos com gente da 3ª.idade,uns que estão nas condições físicas referidas no post outros nem por isso. E exactamente por conhecer e bem esta realidade que lido com ela no dia-a-dia, não concordo que certos familiares mais próximos de alguns idosos que são absolutamente autonómos e lúcidos sejam tratados da mesma forma que aqueles que efectivamente já estão totalmente dependentes dos familiares ede terceiros para tudo e mais alguma coisa.Como deve calcular só decerto modo confidente de alguns idosos com quem lido diariamente e o último que comigo desabafou tem carradas de razão ao lamentar-se pelas determinações que o filho e nora tiveram para com ele. Trata-se duma pessoa com oitenta de tal anos fisicamente melhor que muitos mais novos que ele com menos idade e extremamente lúcido. Pois bem o senhor conduzia o seu prórprio automóvel para o qual estava devidamente habilitado cruzava-me como ele a conduzir em várias ruas e nunca lhe tinha visto fazer qualquer asneira. Pois bem ainda como referi estivesse devidamente habilitado a conduzir o seu automóvel o filho não descansou enquanto não lhe arranjou forma de evitar que ele continuasse a conduzir. Eu acabei por lhe tentar fazer compreender que essa inibição imposta pelo filho prendia-se com o facto do seu filho querer evitar lhe pudesse face à idade dar-lhe qualquer coisa que o levasse a ter um acidente. Pois ele inteligentemente respondeu pois e quem garante que um condutor de vinte e tal anos trinta ou quarenta não lhe possa dar um ataque no momento da condução que lhe provoque um acidente.
    Insisti pois mas sabe é mais vulgar ocorrer esse tipo de problemas com pessoas de idade avançada mas na convicção de que o argumento dele estava certíssimo. Curiosamente há dias percebi talvez o porquê que o filho pretendeu que ele continuasse a conduzir. Ele filho utiliza o automóvel do pai nas suas deslocações. Ou seja meu caro amigo já não sãoos pais que deserdam os filhos são estes que deserdam os pais dos seus próprios bens. Isto para não falar de situações conhecidas e são várias de filhos, noras, genros, netos etc., que têm à sua guarda, pais, sogros e avós, que são despojados dos seus bens nomeadamente até das suas reformas. Claro que isto tem exactamente a ver com o que diz no post.
    Os idosos quer para alguns familiares mais próximos quer para aqueles que assumem a sua guarda, a maioria deles nem direito a ter opinião lhes é permitido. Mas meu caro já avisei os meus filhos num daqueles almoços em familia. Enquanto for autónomo e tiver lucidez não pensem eles intrometer-se na minha vida porque eu não lhes consinto tal.
    Um abraço
    Raul

  2. Caro Amigo Raul

    Obrigado pelo comentário.

    Há trabalho muito bom em centros de dia e lares. E eu conheço alguns casos em que assim é. Porventura, serão muito mais do que só alguns casos. Estas instituições nasceram, e ainda bem, para prestar um serviço social de grande importância, na ausência objectiva de condições por parte dos próprios ou de familiares.

    Porém, há instituições destas que acabaram por transformar-se em depósitos de idosos, que são ali colocados por filhos ou outros familiares, contra a vontade dos próprios idosos e, muitas vezes, quando os próprios familiares tinham condições para fazer de modo diferente. Aí é que está o problema. Hoje começa-se a discutir este problema e a procurar dar-lhe outra solução diferente.

    Nos países do Norte e Centro da Europa, onde há décadas nasceu este movimento de criação de centros de convívio (ou de dia) e lares, já há anos se está a inverter a tendência. Isto porque se chegou à conclusão de que a inserção social dos idosos deve acontecer no seio da sociedade total, a qual é constituída por crianças, adolescentes, adultos activos profissionalmente e idosos, também activos, de preferência.

    Portanto, é uma inserção que deve ser a continuação, sempre que possível, da inserção que já existia: a inserção natural, de origem, ou seja, dentro da família. Isto, do ponto de vista dos idosos é, obviamente, a solução adequada, excepto para aqueles que, objectivamente digam, de modo explícito: “não, eu quero mesmo ir para um centro de dia ou para um lar”. Ou seja, a vontade final do idoso deve ser a determinante e, por isso, respeitada. Queira ele ir ou não para uma dessas instituições. Deve ser o idoso a decidir.

    Ou seja, se se pensar no idoso, é isso que deve ser feito. O que acontece, porém, é que, muitas vezes, não se pensa no idoso, mas no “incómodo” que ele causa ao não-idoso. Isto equivale a dizer o seguinte: os idosos constituem um problema. Isto mesmo (“temos o problema dos idosos”) costumamos nós ouvir ainda dos discursos dos poderes centrais e locais e de outros.

    Ora haver idosos não é um problema. É a coisa mais natural. Faz parte da sociedade, de qualquer comunidade. Como haver crianças, adolescentes e adultos profissionalmente activos.

    Se assim for considerado – os adultos são um problema – é fácil concluir que qualquer idoso consciente, perante esta posição, se sentirá excluído ao ser visto como um problema. Em rigor, em muitas famílias, é assim que eles se vêem – como problemas e, por isso, excluídos.

    Por outro lado, em reuniões em que tive oportunidade de participar há anos, no âmbito de uma subcomissão da União Europeia, tomei contacto com uma outra grande “linha mestra” da política para os idosos (com a qual estou totalmente de acordo) e que defende a execução de formas práticas de promover e incentivar a vida activa dos idosos.

    Vida activa dos idosos não se confina a dar-lhes as sessões de ginástica, as viagens/os passeios, o crochet, o jogo de damas – enfim, estes são alguns exemplos par ilustrar – que são coisas importantes, é certo. Centra-se, sobretudo, em ver o idoso como pessoa, em toda a sua dimensão. Portanto, capaz de viver e organizar a sua vida até onde seja possível, por si mesmo e na relação quotidiana com todos os outros que façam parte da sua vida, e em ter voz activa, em tudo o que a ele diga respeito, em todas as instâncias e dimensões do ser pessoa, com direitos e obrigações. Portanto, como indivíduo integral.

    Enfim, em síntese, estas são algumas ideias principais, dentro das quais me “movo” e, com as quais vou encarar o meu futuro pessoal, enquanto analista e activo profissional e, por outro lado, também enquanto idoso “a caminho”.

    Enquanto tiver saúde e, sobretudo, lucidez. Ou seja, enquanto a cabeça funcionar para que eu consiga ser o tal idoso activo e consciente dos meus direitos e deveres como cidadão. Sempre, até ao fim.

    O seu comentário, como sempre, foi óptimo, porque me suscitou esta “viagem”, sobre um assunto que, daqui por algum tempo, conto voltar a tratar aqui.

    Grande abraço.

    Manuel

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