CRÓNICAS SOBRE OS VELHOS PARA OS NÃO-VELHOS AINDA – CRÓNICA 1

Os velhos são cada vez mais, no nosso país e em todo o mundo. E ainda por cima duram mais anos. Quer dizer, não só são em maior número: há os que são muito mais velhos do que o que acontecia antigamente.

Os não-velhos, entre os quais alguns que se calhar até pensam que nunca vão chegar a velhos (usam cremes-e-tudo contra essa coisa de poderem vir a ser velhos) muitos, dos não-velhos, ficam um bocadinho incomodados com tantos velhos à sua volta, ainda por cima velhos cada vez mais velhos.

Deste modo, os velhos não são só mais – uma questão de quantidade – são também mais velhos – uma questão de qualidade. Um velho-muito-velho é um velho de muita qualidade porque, se assim não fosse, não chegava a muito velho. Isto podem pensar alguns, sobre os muito-velhos. Mas outros, também sobre os muito-velhos,  poderão pensar: um velho-muito-velho só pode ser de má qualidade. E até dizem: “és de tão má qualidade que nem no inferno te querem!…”

Um velho-muito-velho pode ter sido um traste a vida toda, mas se chegou a muito velho é de admitir que tem com certeza muita qualidade para ter resistido e ter chegado aí. Digamos que é um velho que é como se não fosse velho: é forte, é velho mas é resistente. Portanto, é muito velho e também de muita qualidade. Pode dizer-se que é como o “tal” vinho, o do Porto, que quanto mais idade tiver (dizem, que eu não sou entendido) melhor é a qualidade do vinho.

São assim os só-velhos e os velhos-muito-velhos. Mesmo que estejam carcomidos pelas doenças, pelas dores, pelas solidões (muitas) pelo frio e por toda a sorte de coisas, das quais se queixam e também se queixam de que poucos os ouvem queixarem-se, porque os não-velhos estão sempre muito ocupados com coisas importantes, prioritárias, interessantes e por aí fora… são assim os só-velhos e os velhos-muito-velhos.

É verdade que hoje, cá no nosso país, os velhos de todas as idades, quase todos (ou mesmo todos?) têm uma reformazinha, que é uma coisa que dá muito jeitinho, pois serve para pagar o que comem – têm de comer pouco, por causa do instestino, não é?…

Mas a reformazinha também dá, naturalmente (que é termo que a minha mãe, também já velha, está sempre a utilizar, com o sentido de “talvez” ou “se calhar”, porque lhe associa uma pequena interrogação inflexiva, digamos que a procurar obter concordância de quem a ouve, ao pronunciar “naturalmente”, mas não espera a concordância de quem a ouve, ela continua…) dizia eu que, a reformazinha, também dá, naturalmente, para os remédios, quase sempre muitos, mas que nem por isso remedeiam as suas maleitas, porém remedeiam, naturalmente (dirá a minha mãe) outros interesses de outros interessados nos medicamentos com que os velhos e os muito-velhos se vão aguentando, por isso por vezes até os engolem em duplicado, ou mais: tomam ao mesmo tempo, por exemplo, Aspiricina C, Aspegic, AAS, etc.

A reformazinha, para além de alguma extravagância que, uma vez por outra, os velhos se concedem a si mesmos (por vezes às escondidas) a reformazinha também pode ajudar no equilíbrio do orçamento da família. Vai um pouquinho para o colégio do menino, outro pouquinho para as propinas da garota, que está na universidade a estudar para médica ou relações públicas, mais outro pouquinho para a renda ou a prestação da casa ou do “popó” dos filhos, e até para as férias de todos (uma vez por outra também dos próprios velhos?) e vá lá, para os presentes de anos, ou de Natal dos netitos, coitadinhos, gostam tanto, ficam tão contentes…

(Continua)

Manuel

Autor: 60emais

Português.

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