DE QUE VAMOS FALAR NA NOITE DE NATAL, MÃE?!…

Estamos a caminho. Há uma estrada que é circular, nem mais nem menos. Circular. Estamos sempre a caminhar lá, desde o momento único, irrepetível, da nossa criação – momento zero – até ao outro momento único, também irrepetível, da nossa partida. Para sempre. É a minha convicção. Não tenho outras evidências a que me “agarrar”, de modo a pensar diferente e agir de acordo com essa forma diferente de pensar. Então, vejo a minha vida, a vida de todos e a vida em geral, como algo de muito concreto, evidente. Algo que se desloca por esse círculo, de maior ou menor diâmetro, consoante o tempo de existência de cada ser e de tudo o que existe. Até das pedras, das águas… E um dia – momento final – partimos. Para sempre.

Há então, na nossa vida, um círculo geralmente maior e, nele, círculos menores. É o caso dos círculos anuais, sempre com a mesma duração. Contudo, a noção de tempo varia muito, por  exemplo, com a idade e as motivações do observador. Em criança dizia “nunca mais faço anos”, ou “quem me dera ir para a escola, já tenho saudades…”. Agora, há muitos anos que venho dizendo “outra vez a fazer anos, ainda há tão pouco fiz…”, e outras coisas assim.

O Natal, para os que têm essa visão do nascimento de um menino a quem deram o nome de Jesus, entra no círculo da vida. E também para os que não têm essa visão, porque acontece para os que a têm e há as manifestações associadas, que são visíveis em todo o Mundo. Todos os anos. Dantes era só a 25 de Dezembro, ou uns diazitos antes. É do que me lembro. Em Santarém, em Almeirim, no Cartaxo… as montras, os pinheirinhos de Natal, um urso castanho lá empoleirado, a olhar para nós, quase dizia “leva-me!”, uma “caminete” de folha-de-flandres às cores, no musgo em volta, parecia mesmo que subia o monte. E uma boneca de celulóide a sorrir, com ar de namoradinha no futuro. E mais não sei quantas tentações. E ainda, havendo espaço na montra, os pais do menino. Em volta dele. E os animais do cenário. Todos ou só alguns. E a estrela, obviamente. Além dos reis magos, mais ao longe, a caminho.

Na véspera de Natal, a minha mãe a ir à loja da Mercedes. Para comprar a canela, a farinha, o açucar de pilé. A minha mãe a ir às laranjeiras do vizinho, que a nossa era raquítica. Foi assim muitos anos, depois espevitou. A minha mãe a ver se tinha aguardente e abóbora que chegasse. “E onde é que tenho o rolo?”. “E o rodízio?”, que era para cortar a massa dos coscorões, ficavam com aquele rendilhado único. A minha mãe a ir à talha do azeite (quando havia) e a ir ver se tinha lenha que chegasse, a arear as frigideiras e o garfo grande de virar coscorões e velhozes. A minha mãe a controlar tudo. Ai de nós se a desviássemos da azáfama. Naqueles dias, os mais pequenos ficavam entregues aos mais velhos e à avó Constantina.

Todos ansiavam pela manhã do dia de Natal. No círculo anual da nossa vida era esse, acima de todos, o momento mais bonito do ano. Dia frio. Baço, de nevoeiro ou chuva, quase sempre. A cara do dia a entrar, tal-e-qual, pelo postigo da porta da cozinha. Está na retina e não mais se apagará. Com cores e odores. No fogão a lenha, o lume a lamber, sôfrego, as cavacas de oliveira. O perfume do fogo a juntar-se ao perfume do leite, que fervia e talvez derramasse. No ar da cozinha, assim perfumada, entrava então o doce e irresistível cheiro a canela e açucar de pilé. Vinha da panela de esmalte, enorme, que estava na sala ao lado. E nela os velhozes, encostadinhos uns aos outros, com as suas “pernas”, assim chamávamos ao que pareciam os tentáculos ou raízes dos velhozes. O ruído da tampa da panela, a deslizar, quando a minha mãe lá ia buscar os velhozes. O ruído de tirar e voltar a pôr a tampa. Era preciso que os velhozes durassem dias. Quantos mais dias mais doces, mais melaço de canela e açucar.

O perfume vinha também dos tabuleiros onde estavam os coscorões, cuidadosamente amontoados, com uma toalha rendillhada por cima. Leves, estaladiços, massa tão fina, leve sabor a casca de laranja… Em cada um, o sentido, o saber, o toque, o esforço, o cansaço, a arrelia, o sorriso, o prazer… de minha mãe, a copiar a nossa avó. Ali, em pratos grandes, à nossa frente, ao pequeno-almoço. A minha mãe. Cansadíssima. Contente. Nós a apreciarmos. Nós a comermos a sua obra da noite de Natal e ela vaidosa. Com moderação. Depois, um presentito, talvez uma vestimenta nova e… já era muito bom!

O círculo anual da vida a continuar. Para mim. Para nós. Para a minha mãe. Porém, os tempos são outros. Em muitas “coisas”, por muitas razões. O círculo maior, o círculo da vida de cada um de nós, já tem muitos círculos pequenos, não é?!… Mas isso é uma boa ”coisa”. E outra boa “coisa”: vamos passar a noite de Natal juntos, outra vez, mãe. Não vamos estar na nossa cozinha, não temos o calor do nosso fogão a lenha. Não iremos ter tanta coisa, mãe… Mas deixa lá. Já sei fazer velhozes. Talvez eu consiga fazer coscorões. Pela primeira vez!… Ensinas-me? Prometo que vou seguir os teus conselhos. Eu sei, não vão ficar como os teus. Oh, oh, nem de longe nem de perto!…

Na noite de Natal vamos falar… De quê, mãe? Ah!… Não é preciso pensar nisso. Tu hás-de ir, de memória em memória,  pelo círculo imenso e rico da tua vida. Alegrias e não-alegrias. Tu hás-de guiar-nos. De vez em quando, eu já sei, vais dizer, “bom, mas deixemos isso”, que é uma forma de pores fim à tua própria divagação na conversa. Falas, falas, dás voltas e mais voltas, entras em novelos complexos, até que decides voltar ao ponto em que havias entrado em dispersão. O pai dizia: “vais dar a volta ao mundo, para chegares quase ao ponto de partida”. Mas tu és assim, ponto final.

Depois, vamos sossegar, que mais logo virá o dia.  E pela manhã, eu hei-de fazer o cabrito de caldeirada. Hão-de chegar os teus netos e bisnetos. Antes do almoço, miúdos e graúdos, irão abrir os presentes. Alegria, algazarra. Mas… tanta coisa, não é? … Um exagero. E eles irão apreciar os nossos velhozes e coscorões, não achas?… Porém, umas horitas depois será noite, e já terão ido embora. Que pena… Não faz mal, hão-de voltar.

O Natal a sair, mais uma vez, do círculo grande da nossa vida. Mas sabes uma coisa? Daqui por um ano, já cá o temos outra vez!… Vais ver!…

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

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